Querer Mudança apenas com Amor é apelar ao inanimado – não nos Serve!

Inegável reconhecer que vivemos mudanças de uma intensidade, complexidade e velocidade atroz. Sentimo-nos ofuscados com tantas possibilidades de acontecimentos prováveis e atordoados com as possibilidades dos acontecimentos improváveis.

Nos corredores da nossa humanidade há uma luta silenciosa a ocorrer. Ela ocorre no nosso íntimo, nas nossas organizações, nos nossos países e no nosso Planeta. Silenciosa mas extremamente polarizada e extremada de acções, ou de falta delas.

Perante a imensa complexidade que nós enquanto indivíduos encerramos, vemo-nos reflectir o conflito para cada centelha de expressão de participação que temos no espaço colectivo, seja ele subjectivo (cultural), seja ele objectivo (social).

Enquanto temos por um lado um impulso de nos desenvolvermos, de crescermos e de sermos independentes, autónomos e livres, temos por outro um impulso de interconectar, relacionar, comungar e curar.

São duas dimensões que nos convocam crenças imediatas – de um lado o Poder e do outro o Amor. Porque achamos que sabemos o que envolvem, ao invés de procurarmos saber o que são e como melhor os manifestar/usar.

Paul Tillich definiu o Poder como o impulso de tudo o que vive para se auto-realizar com crescente intensidade e extensividade. E definiu o Amor como o impulso para a Unidade do que está separado.

Estas definições são ontológicas: elas têm que ver com o quê e porquê Poder e Amor “São” ao invés daquilo que permitem ou produzem.

Diz o autor Adam Kahane que há uma colisão entre estas duas dimensões de impulsos. E que essa colisão no campo teórico parece fácil de resolver, mas que no campo prático não só é difícil como pode ser perigoso. Produz tensão, consternação, complexidade acrescida e conflito.

O Poder pode negar a dimensão do Amor mas não significa com isso que os problemas de separação e fragmentação se resolvam. O Amor pode negar o Poder mas não significa com isso que os problemas de negação, opressão e abuso desapareçam.

E a questão de fundo é que esta polarização entre Poder e Amor nos bloqueia – enquanto indivíduos, enquanto organizações, enquanto países, enquanto membros de uma família única interconectada que habita numa mesma casa chamada Terra. Bloqueia-nos porque nos convencemos e nos convenceram que temos de escolher entre um ou o outro.

Carl Jung duvidava até que fosse possível para estes dois impulsos coexistirem numa mesma pessoa: “Onde o Amor reine, não há vontade de Poder; e onde o impulso de Poder é dominante, o Amor escasseia. Um não é mais do que a Sombra do outro.”

Os que advogam o Poder como via única vêem a dimensão do Amor como irrealista e impraticável;

Os que advogam o Amor como via única vêem a dimensão do Poder como irresponsável e opressora;

Esta visão destas dimensões da natureza humana convenientemente esquece que o Poder e o Amor têm duas facetas cada um:

  • O Poder pode ser generativo – quando crio, criamos “realidades” – O Poder Com… – Power With.
  • O poder pode ser degenerativo – quando oprimo e controlo – O Poder Sobre… – Power Over.
  • O Amor pode ser generativo – ao nos movermos em amor, com amor – inclusivo – Moving in Love.
  • O Amor pode ser degenerativo – quando “caímos” por amor – exclusivo e obsessivo – Falling in Love.

Esta dinâmica é exemplificada por Paola Melchiori na relação cultural de géneros entre Homem e Mulher construída ao longo da história:

Poder está mais ligado a uma energia dita masculina e é consubstanciado:

  • Generativamente – Quando o Pai sai de casa e vai para o trabalho para Criar algo, Construir algo;
  • Degenerativamente – Quando o Pai fica obcecado pela sua missão, pelo seu caminho, e com isso se desconecta/separa de colegas, amigos e sobretudo família, e torna-se ou um robot ou um tirano;

Amor está mais ligado a uma energia dita feminina e é consubstanciado:

  • Generativamente – Quando a Mãe engravida e dá à luz – cria Vida;
  • Degenerativamente – quando a Mãe fica obcecada com a unidade e coesão da família, em nutri-la, que acaba por minar o Poder dos indivíduos que a compõem e mais fortemente ainda, o seu próprio.

Kahane afirma que o que torna o Poder degenerativo ao invés de generativo é a Falta de Amor; e afirma que o que torna o Amor degenerativo ao invés de generativo é a Falta de Poder.

Esta equação está sumarizada numa frase de Martin Luther King:

“(…) Poder sem Amor é imprudente e abusivo, e Amor sem Poder é sentimental e anémico.”

É precisamente esta colisão entre Poder Imoral com Moralidade desemPoderada que representa a grande crise dos nossos tempos, disse-nos King.

Precisamos de abandonar a ideia de uma via única e de considerar que a outra opção é um grande erro. Precisamos de abraçar as duas dimensões para resolvermos as questões complexas que enfrentamos – Poder com Amor e Amor com Poder – Poder Amoroso e Amor Poderoso;

Para co-criarmos novas realidades sociais, temos de trabalhar com estas duas forças que se encontram em tensão e que carecem de uma reconciliação permanente e criativa.

“Criar novas realidades sociais requer um impulso Amoroso para unir e um Poderoso impulso para materializar esta união. Exercer o Poder com Amor requer efectuar a mudança sistémica sem destruir aquilo que estamos a tentar nutrir.” Adam Kahane